Sobre o caso da juíza Mariana, o problema não está na linguagem

  • 28/05/2026
Sobre o caso da juíza Mariana, o problema não está na linguagem
Sobre o caso da juíza Mariana, o problema não está na linguagem (Foto: Reprodução)

A juíza gaúcha Mariana Francisco Ferreira faleceu em 9 de maio de 2026, devido a complicações relacionadas à reprodução assistida, o que gerou um período de luto em todo o Brasil.

Apesar do luto, foi lamentável o que fizeram de propósito com a tragédia.

A Folha de São Paulo, em meio à morte da juíza, publicou uma insensível e populista charge de Marília Marz. No epitáfio, lia-se: “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos”.

Transformando o sarcasmo e a ironia em uma atitude que se tornou uma piada de gosto bastante questionável. Foram muitas as vozes que se levantaram a considerar que essa atitude foi uma ofensa à juíza, à sua família, à própria magistratura, a todo ser humano de carne e osso que tenha sensibilidade a respeito dos valores que nos humanizam.

Entidades do Judiciário expressaram pesar e repúdio à publicação desrespeitosa. Notas de repúdio foram emitidas por entidades como AJURIS, CONSEPRE, AJUFE, o TRF da 3.ª Região, a AMB e o presidente do STF, Edson Fachin.

Tentando se justificar publicamente e sem saber como diminuir o descontentamento, a resposta da chargista acabou sendo como o ditado sobre a emenda e o soneto: pior ficou a primeira.

Após a polêmica, Marília Marz afirmou à Folha que a morte da juíza não foi a inspiração para a charge e lamentou a associação feita. "Só soube dessa horrível coincidência e interpretação a partir dos ataques na internet. Peço imensas desculpas", respondeu Marília.

A Folha igualmente fez uma tentativa:

"A charge, segundo a autora, não tem a ver com essa morte específica nem com qualquer morte concreta. 'A morte trágica da juíza Mariana Ferreira não foi inspiração para a charge, e lamento muito que essa associação tenha sido feita. Só soube dessa horrível coincidência e interpretação a partir dos ataques na internet. Sinto muitíssimo", escreveu Marilia Marz no Painel do Leitor, em resposta a mensagens publicadas pela Folha.

É possível entender a charge como uma demonstração de gosto duvidoso diante do contexto maior e não comprar a justificativa do jornal ou da autora. O comentário gráfico e textual ('vidinha mais ou menos'), no entanto, não parece desconectado de manifestações folclóricas contra o fim dos 'penduricalhos' — trabalho 'em regime de escravidão', ganhar 'menos que um sorveteiro' e ficar sem água nem café estão entre as queixas de magistrados que viralizaram recentemente.

Não deixa de gerar alguma estranheza, da mesma forma, o timing de órgãos do Judiciário na comoção com a tragédia que motivou os questionamentos ao jornal. Além da tragédia pessoal, a notícia da morte da jovem juíza na coleta de óvulos remete a outro aspecto. Não só na magistratura, mas em praticamente qualquer campo, a vida reprodutiva feminina entrará em questão em algum momento: já carregar os filhos e arcar com as consequências, adiar a gravidez e arcar com as consequências, rejeitá-la por vontade ou perdê-la pelas circunstâncias e arcar com as consequências."

Mas é um fato consumado! A chargista e a Folha reagiram à ofensa de uma maneira que só elas mesmas entenderam. De maneira alguma trouxeram desculpas kantianas (consciência do dever moral). Uma semente foi plantada, e isso era o que realmente importava. Desmenti-la posteriormente na internet é simples, uma vez que a verdade flutua no ambiente e permite que a mentira se estabeleça como uma verdade.

O que é evidente não requer explicação.

Não conseguiram conter o desejo de transformar ou questionar as situações. Rosenstock-Huessy, inventor de um método de linguística, disse: “A língua é mais sábia que quem a fala”.

Olavo de Carvalho, ao introduzir a obra de Rosenstock-Huessy, comentou sobre a degradação do português brasileiro: “...o português…escrito no Brasil…é frequentemente tão artificial que parece ridiculamente pomposo” (Introdução de A origem da linguagem).

A introdução também ressalta que, no Brasil, a politização da fala e da escrita é um "instrumento de dominação" que dificulta a compreensão da realidade e aliena as pessoas a slogans, levando à perda da expressão.

Se a questão está na linguagem, então as palavras “vidinha”, “mais ou menos” e “penduricalhos” não teriam seus significados. Precisaremos recusar certas verdades: uma lápide não é uma lápide, a doutora não faleceu e isso não se deve a questões relacionadas à reprodução assistida. Penduricalhos, patrimonialismo e aquilo que designam por privilégios não guardam relação alguma.

Se não se trata de uma questão de linguagem, então é uma questão de óculos corretivos. Seria de grande valia consultar um oftalmologista, visto que o que está escrito não está escrito, conforme afirmaram tanto o jornal quanto a desenhista.

No livro A origem da linguagem, Rosenstock-Huessy defende que a linguagem falada surgiu da necessidade de discutir temas políticos e religiosos. Emergiram dificuldades de comunicação em tempos de guerra (já que não se deve prestar atenção ao inimigo), em períodos de crise (em que se ocultam ações de um amigo) e durante revoluções (com gritos por toda parte) e, por fim, em um estado de degeneração (com a repetição hipócrita de sons).

Michel Foucault procurou desvincular o objeto de nossa representação visual. Um quadro que retrata um cachimbo é, de fato, um quadro e não um cachimbo; da mesma forma, uma charge que ilustra uma lápide é um desenho e não uma lápide.

Estou persuadido de que a questão reside na alma, não na linguagem ou na interpretação do que foi escrito ou dito.

 

Sergio Renato de Mello é defensor público de Santa Catarina, membro da Igreja Universal do Reino de Deus, autor de obras jurídicas e filosóficas, e dos seguintes livros: Fenomenologia de Jornal, O que não está na mídia está no mundo e Voltaram de Siracusa.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Cristãos com espírito socialista

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/sergio-renato-de-mello/sobre-o-caso-da-juiza-mariana-o-problema-nao-esta-na-linguagem.html


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 10

top1
1. Deus Proverá

Gabriela Gomes

top2
2. Algo Novo

Kemuel, Lukas Agustinho

top3
3. Aquieta Minh'alma

Ministério Zoe

top4
4. A Casa É Sua

Casa Worship

top5
5. Ninguém explica Deus

Preto No Branco

top6
6. Deus de Promessas

Davi Sacer

top7
7. Caminho no Deserto

Soraya Moraes

top8
8.

Midian Lima

top9
9. Lugar Secreto

Gabriela Rocha

top10
10. A Vitória Chegou

Aurelina Dourado


Anunciantes