Poder do Espírito Santo para evangelizar, e não para dominar pessoas

  • 06/01/2026
Poder do Espírito Santo para evangelizar, e não para dominar pessoas
Poder do Espírito Santo para evangelizar, e não para dominar pessoas (Foto: Reprodução)

Em Atos 1:8, o Senhor Jesus Cristo promete aos discípulos o poder do Espírito Santo, não para a dominação de pessoas, instituições ou estruturas sociais, mas para capacitá-los na missão da evangelização: “recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas”. O poder prometido está intrinsecamente ligado ao testemunho cristão e à proclamação do Evangelho, e não ao exercício de coerção religiosa, política ou cultural.

No Antigo Testamento, a atuação do Espírito Santo manifesta-se de maneira pontual e restrita, geralmente associada a líderes específicos, como no período de Moisés (Nm 11:16–17, 24–29) e no reinado de Saul (1Sm 10:6; 16,14). Essas manifestações antecipam uma promessa maior, anunciada pelo profeta Joel: “derramarei o meu Espírito sobre toda carne” (Jl 2,28–30). Trata-se de uma ampliação escatológica da ação do Espírito, agora destinada a todo o povo de Deus, sem distinção de gênero, idade ou condição social.

Essa promessa encontra seu cumprimento inaugural em Atos 2, no evento de Pentecostes, quando o Espírito Santo é derramado sobre a igreja primitiva. A partir desse acontecimento, a experiência pentecostal passa a integrar de forma constitutiva a vida e a missão da Igreja, permanecendo ativa ao longo da história e estendendo-se às gerações subsequentes (At 2:16–18; 39).

No século XX, o movimento pentecostal destacou-se de maneira significativa por seu forte impulso missionário e evangelístico, marcado pela convicção de que o poder do Espírito Santo continua operante. A hermenêutica pentecostal afirma que os dons espirituais não cessaram, mas são concedidos soberanamente por Deus para a edificação do Corpo de Cristo (1Cor 12:4–11; 14,12). Essa experiência espiritual constitui a base da teologia pentecostal, expressa de modo sintético por Robert P. Menzies ao afirmar que “Pentecostes — essa história é a nossa história”, ressaltando a continuidade entre a experiência da igreja apostólica e a igreja contemporânea.

Todavia, o advento de segmentos neopentecostais, associados à teologia da prosperidade, à pregação motivacional dos chamados coaches religiosos e à teologia do domínio, tem produzido sérias distorções do sentido bíblico do Evangelho. Essas abordagens frequentemente deslocam a centralidade da cruz (1Cor 1:18) para discursos de poder, sucesso, influência e controle social, descaracterizando a missão da Igreja e comprometendo o testemunho cristão. Além disso, acabam por lançar suspeita injusta sobre comunidades e líderes que permanecem fiéis ao Evangelho histórico e à espiritualidade pentecostal clássica.

O Senhor Jesus Cristo chamou a sua Igreja para proclamar o Evangelho e viver como “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt 5:13–16). Contudo, essa missão é essencialmente servil, e não dominadora. O próprio Cristo afirmou: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10:45). Assim, qualquer compreensão do poder espiritual que se desvie do serviço, da humildade e do amor contradiz o próprio caráter do Reino de Deus.

Os discípulos de Cristo podem e devem estar presentes em todas as esferas da sociedade — política, educação, cultura, economia e vida pública —, mas sempre como servos, e não como agentes de opressão. A história do cristianismo oferece exemplos negativos de alianças entre fé e poder coercitivo, que resultaram em violência, perseguição e negação prática do Evangelho. Tais episódios demonstram os riscos de uma leitura distorcida da missão cristã.

Na proclamação do Reino, Jesus jamais forçou alguém a aceitar sua mensagem (Mc 10:17–22; Jo 6:66). Em nenhum momento incentivou rebeliões políticas contra o Império Romano. Pelo contrário, ensinou seus seguidores a viverem a partir de uma contra cultura moral do Reino de Deus, marcada pela justiça, pela reconciliação e pelo amor aos inimigos (Mt 5:38–48; 22,21). Mesmo diante de um império historicamente reconhecido por sua crueldade e falta de compaixão, a resposta de Jesus não foi a violência nem a imposição, mas o caminho da cruz, do serviço e da entrega.

Dessa forma, o grande desafio da Igreja contemporânea é repudiar qualquer expressão da teologia do domínio, reafirmar a centralidade do Evangelho e anunciar a salvação no poder do Espírito Santo, servindo com fidelidade a uma sociedade plural, composta por homens e mulheres que são alvos da graça de Deus (Jo 3:16; Tt 2:11). O poder do Espírito não é instrumento de dominação, mas de testemunho, serviço e transformação moral e espiritual à luz do Reino de Deus.

 

Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Natal e o poder do Espírito Santo: A história que começa antes da manjedoura

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/ediudson-fontes/poder-do-espirito-santo-para-evangelizar-e-nao-para-dominar-pessoas.html


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