O que o Irã tem a ver com o fim do mundo?

  • 04/02/2026
O que o Irã tem a ver com o fim do mundo?
O que o Irã tem a ver com o fim do mundo? (Foto: Reprodução)

Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista. Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram me buscar, e já não havia mais ninguém para me defender. — Martin Niemöller

O nome Irã evoca hoje imagens contraditórias. De um lado, o berço de uma das civilizações mais antigas e influentes da humanidade. De outro, um ator geopolítico frequentemente associado a tensões regionais e ao espectro de conflitos de grandes proporções. Para compreender essa dualidade, é necessária uma jornada que começa nas páginas da Bíblia e chega aos noticiários contemporâneos. Essa trajetória revela como história, profecia e política se entrelaçam na identidade dessa nação.

Na tradição bíblica, a região que hoje chamamos Irã surge não como mero pano de fundo, mas como agente ativo — tanto de bênção quanto de juízo — no desenrolar da história redentiva de Deus.

Raízes bíblicas: de Elão à Pérsia

A palavra “Irã” não aparece nas Escrituras. O território e seus povos são identificados principalmente por dois nomes:

Elão (ou Elam): referência ao povo que prosperou no sudoeste do atual Irã antes da ascensão persa. Etnica e linguisticamente distintos, os elamitas acabaram sendo assimilados ao longo do tempo.

Pérsia: termo derivado de Parsa (região de Fars), usado pelo Ocidente para designar o império fundado por Ciro, o Grande. O nome “Irã”, que significa “Terra dos Arianos”, é o endônimo adotado oficialmente a partir do período sassânida (século III d.C.).

Essa região está longe de ser periférica. O profeta Jeremias anunciou tanto o juízo quanto o futuro restabelecimento de Elão (Jeremias 49:34–39). Historicamente, essa palavra encontra eco na ascensão do Império Medo-Persa, que, sob Ciro, conquistou a Babilônia em 539 a.C. Esse evento também dialoga com as visões de Isaías (Isaías 21:2) e de Daniel, que descreveu a sucessão e a queda dos impérios mundiais (Daniel 2; 7).

É significativo que Daniel tenha tido uma de suas visões justamente “na província de Elão” (Daniel 8:2), um indício de que ele vivia naquela região do Império Persa. Foi nesse contexto Persa que ocorreram eventos decisivos para o povo judeu: o Édito de Ciro (538 a.C.) autorizou o retorno dos exilados e a reconstrução do Templo em Jerusalém; décadas depois, a narrativa de Ester se desenrola no reinado (possivelmente) de Xerxes I (Assuero), por volta de 475 a.C.; e, posteriormente, sob Artaxerxes I, os livros de Esdras e Neemias relatam a reconstrução espiritual, social e física de Jerusalém.

Por curiosidade, é importante lembrar que a Batalha das Termópilas (480 a.C.), retratada no filme 300, ocorreu possivelmente sob o reinado do rei persa Xerxes I (Assuero), filho de Dario I.

O domínio persa chegou ao fim com a conquista de Alexandre, o Grande, evento descrito de maneira notavelmente detalhada em Daniel 8. Já no Novo Testamento, a menção a “Partos, Medos e Elamitas” presentes em Jerusalém no Pentecostes (Atos 2:9) evidencia a permanência de uma significativa diáspora judaica na Pérsia, agora testemunha do nascimento da Igreja.

A Pérsia na profecia: do retorno do exílio ao horizonte escatológico

A figura de Ciro, o Grande, ocupa um lugar singular nas Escrituras. Ele é chamado de “ungido do Senhor” (Isaías 45:1) e “meu pastor” (Isaías 44:28), apesar de ser um governante gentio. Seu decreto em favor de Judá revela o propósito da soberania divina: Deus age para além das fronteiras de Israel e utiliza até mesmo governantes pagãos para cumprir seus planos redentores.

Essa perspectiva relativiza leituras simplistas que dividem a história entre “nações de Deus” e “nações do mal”. A Bíblia apresenta um Deus que governa sobre todos os reinos e cuja ação não se limita às categorias políticas ou religiosas humanas. Entretanto, em outra corrente profética, a Pérsia aparece inserida em um cenário de conflito escatológico. Em Ezequiel 38–39, a profecia de Gogue e Magogue descreve uma grande coalizão de nações que se levanta contra Israel “nos últimos dias”. Entre essas nações, Ezequiel 38:5 menciona explicitamente a Pérsia.

O foco do texto, porém, não é a identidade geopolítica exata de cada povo, mas o desfecho teológico do conflito: a intervenção soberana de Deus em defesa do seu nome e do seu povo. O próprio texto declara o objetivo do juízo: “para que saibam que eu sou o Senhor” (Ezequiel 39:7). A profecia, portanto, não é um mapa cronológico do fim dos tempos, mas uma afirmação da supremacia divina sobre as forças que se levantam com arrogância contra Ele.

Interpretações escatológicas e a versãi xiita

No dispensacionalismo — sistema escatológico influente em setores do Cristianismo — Ezequiel 38–39 é frequentemente lido como um roteiro literal de eventos futuros. Nessa perspectiva, o Irã moderno, identificado com a Pérsia bíblica, surge como aliado estratégico de uma Rússia associada a Magogue em um ataque final contra Israel. O fato Bíblico é real, mas a referência aos possíveis países é alvo de debates acadêmicos. De qualquer forma, algo vai acontecer naquela região, e o cristão tem que estar pronto para a Volta de Jesus.

A Revolução Islâmica de 1979, que transformou o Irã em uma teocracia xiita com forte discurso antissionista e cristão, reforçou essa leitura. O cenário político contemporâneo passou a ser interpretado como confirmação direta da profecia. Entretanto, essa não é a única leitura possível — nem a predominante na história da interpretação bíblica. Muitos estudiosos não dispensacionalistas entendem essas profecias como linguagem apocalíptica simbólica, destinada a encorajar comunidades oprimidas e afirmar que nenhum império hostil terá a palavra final. De fato a profecia bíblia possui simbolismo, mas o seu efeito é real e histórico. Minimizar a meras simbologias é um risco factual que se pode correr. Temos que lembrar do profeta que diz: Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus (Miquéias 6:8).

Curiosamente, o islã xiita também possui uma escatologia desenvolvida, centrada no retorno do Mahdi, o chamado Duodécimo Imã oculto, que instaurará justiça após um período de caos e conflito. A retórica revolucionária iraniana frequentemente mobiliza essa expectativa messiânica. O resultado é um inquietante fenômeno de “escatologias espelhadas”, no qual diferentes tradições religiosas interpretam o outro como ator de um drama cósmico predestinado ao confronto.

Quando a escatologia se torna lente exclusiva, a história concreta desaparece. E quando a profecia é tratada como roteiro jornalístico, a ética do presente corre o risco de ser negligenciada.

O Irã contemporâneo: geopolítica além da caricatura profética

Compreender o Irã atual exige ir além das leituras escatológicas e reconhecer sua complexidade como Estado-nação. A Revolução de 1979 reconfigurou profundamente sua identidade política, transformando um aliado do Ocidente em uma república islâmica teocrática radical, marcada por um discurso antimperialista e por uma memória histórica de intervenções estrangeiras.

Suas ações internacionais são moldadas por cálculos estratégicos claros:

Programa nuclear: apresentado pelo governo iraniano como direito soberano, é percebido por Israel e por países ocidentais como ameaça existencial. Porque no próprio discurso da atual liderança do Irã diz: a destruição total de Israel e de seus aliados.

O “Eixo de Resistência”: rede de influência regional por meio do apoio a grupos como o Hezbollah, milícias no Iraque e na Síria, e os Houthis no Iêmen. Para Teerã, trata-se de defesa estratégica; para seus adversários, de expansionismo regional.

Internamente, o Irã vive tensões profundas. Protestos recorrentes, como os desencadeados pela morte de Mahsa Amini em 2022, expõem fissuras estruturais: o conflito geracional entre uma juventude urbana e conectada e um establishment religioso rígido; uma intensa questão de gênero liderada por mulheres; e uma crise econômica agravada por corrupção, sanções internacionais e brigas políticas internas. A identidade nacional iraniana permanece em disputa entre o nacionalismo persa, o islamismo xiita e aspirações seculares.

Lições da história para a fé e a análise

O Irã ocupa um espaço singular onde história, teologia e política se cruzam de maneira intensa. Sua herança Persa o conecta diretamente a narrativas Bíblicas fundamentais, nas quais foi instrumento inesperado da providência divina.          

A principal lição que a história bíblica da Pérsia oferece talvez seja esta: Deus age na história por meio de caminhos inesperados, transcendendo nossas categorias simplistas de “aliados” e “inimigos”. Ciro, um conquistador pagão, foi chamado de “ungido” para cumprir um propósito de libertação. Essa verdade convida tanto o crente quanto o analista à humildade.

Para as comunidades de fé, isso implica orar por paz e justiça, defender a dignidade humana do povo iraniano e buscar um engajamento informado que desconstrua estereótipos. Para todos, significa reconhecer que o futuro do Irã — como o de qualquer nação — será moldado por uma complexa teia de fatores proféticos, históricos, políticos e sociais. E, na perspectiva da fé, permanece sob a soberania última de um Deus cujos caminhos são sempre mais amplos do que nossas interpretações.

Enquanto isto, a todos aqueles que se dizem tementes a Deus, lembre-se: Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia (I Coríntios 10:12). Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra (Oséias 6:3).

Jesus está voltando! Desperta, tu que dormes e Cristo te iluminará!

 

Fernando Moreira (@prfernandomor) é Pastor, Doutor em Teologia e Mestre em Computação. MBA em Vendas, Marketing e IA. Membro da Academia de Letras e Mentor de alunos de MBA. Une o conhecimento técnico, teológico e executivo. Escritor. Palestrante.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Quem não vai a Jesus pelo amor vai pela dor. Será?!

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/fernando-moreira/o-que-o-ira-tem-ver-com-o-fim-do-mundo.html


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