A Páscoa da segunda chance

  • 29/04/2026
A Páscoa da segunda chance
A Páscoa da segunda chance (Foto: Reprodução)

O próximo dia primeiro de maio coincide com um evento pouco conhecido dentro do calendário hebraico — 14 de Iyar. Este é o dia designado para a segunda Páscoa ou Pesach Sheni e ocorre após um mês da celebração principal.

A Festa da Páscoa é a única da Torá que engloba esse conceito de uma segunda celebração. Esta ordenança está em Números 9:6-13, após Moisés ser questionado por alguns homens impedidos de entregar sua oferta devido à impureza. Ela foi dada por Deus a Moisés após este ser questionado por alguns homens que não puderam celebrar a Páscoa na data estabelecida de 14 de Nisan, pois estavam ritualmente impuros por terem tido contato com um cadáver.

Deus respondeu a Moisés que pessoas que estivessem ritualmente impuras, devido a algum contato com morto, ou por se encontrarem em uma viagem longa, ainda assim poderiam participar da celebração. E estabeleceu um mês exato após a Páscoa para isso, em 14 de Iyar.

Esse é o conceito de Pesach Sheni, a segunda celebração de Pesach. A não participação na primeira, porém, devia ser justificada. Ou seja, o contato com o cadáver teria de ser uma necessidade como, por exemplo, na morte de um parente próximo. Ou a “viagem longa” só poderia ser uma justificativa se ocorressem imprevistos no caminho que impedissem alguém de chegar a tempo da celebração. Se a não participação fosse por motivo de negligência, a segunda celebração não era permitida e a pessoa era punida com a exclusão da comunidade de Israel, o que, para alguns sábios, era uma pena considerada pior que a de morte.

Um desejo sincero

Pesach Sheni é a única Festa da Torá que se admite uma flexibilidade, caso não se consiga chegar a tempo para a celebração da primeira Páscoa. As três festas anuais requeriam preparação e antecipação de modo a se chegar em Jerusalém no tempo apropriado para apresentar o devido sacrifício.

O mais interessante é que esse mandamento foi originado por uma provocação humana, conforme o verso 7: “Estamos impuros por causa de um cadáver, mas por que seríamos privados de oferecer a oferta do Senhor a seu tempo determinado no meio dos filhos de Israel?”. Eram homens que, por motivo de força maior e por acontecimentos alheios a sua vontade, não se conformaram em perder a celebração da Páscoa, mas desejaram em seu íntimo uma oportunidade para apresentarem suas ofertas. Deus viu a sinceridade em seu interior e emitiu esse mandamento a Moisés, garantindo que no mês seguinte, no mesmo dia 14, eles pudessem participar da Páscoa do Senhor.

Embora essa seja a única vez em que Pesach Sheni aparece em toda a Bíblia, esse mandamento é bem explorado e ampliado pelos comentaristas clássicos no Talmude que acrescentam detalhes práticos como, por exemplo, o sacrifício pascal que deveria ser acompanhado de matza (asmo) e maror (ervas amargas), símbolos proeminentes da Páscoa, juntamente com o cordeiro. Rashi, rabino do século XI e um dos expoentes sábios da história de Israel, destaca o mérito daqueles israelitas que trouxeram ousadamente a questão até Moisés e enfatiza que, mesmo perdendo o primeiro Pesach, ninguém precisa ficar excluído.

Uma segunda chance

O mandamento de Pesach Sheni nos leva a uma reflexão mais profunda sobre a bondade e a misericórdia divinas. Estes atributos sempre estarão ao alcance do homem, porém, muitas vezes é preciso ousadia para desfrutar deles, como fizeram aqueles israelitas impuros. Quantas vezes, muitos perdem o melhor de Deus também por se encontrarem impuros, presos às amarras deste mundo e aos mais diversos pecados, excluídos da comunhão dos santos?

Pesach Sheni nos ensina que nunca é tarde para se buscar ao Senhor, arrepender-se de sua impureza e fazer o caminho de volta, tal qual o filho pródigo. Na Nova Aliança, temos Yeshua por Mediador, em lugar de Moisés, e é a Ele quem devemos ir para buscar misericórdia para uma nova oportunidade. O Senhor não a negou no passado e não a negará hoje.

Portanto, Pesach Sheni fala de uma segunda chance. É relevante que a Festa em que o cordeiro pascal era sacrificado, que teve seu antítipo cumprido no Cordeiro de Deus sacrificado pelos pecados da humanidade, seja a única a contemplar uma segunda data. Isso soa profético e aponta para um Deus de misericórdia e benevolência. Ele abre espaço para todo aquele que dele deseja se aproximar, ainda que tardiamente. Sempre haverá uma porta aberta, pois Ele é o Deus da segunda chance.

 

Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Yom Hashoah — O Dia do Holocausto

FONTE: http://guiame.com.br/colunistas/getulio-cidade/pascoa-da-segunda-chance.html


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